Entre becos estreitos, ruas apertadas, casas encostadas umas às outras e caminhos que se cruzam com diferentes zonas da cidade, a reportagem encontrou um bairro marcado pelo tempo, mas também por uma forte identidade comunitária.
A personagem escolhida para contar parte dessa história é Luísa Moniz Cardoso Neto, conhecida pelos moradores por “Tia Guilhermina” ou simplesmente “Tia Gui”, de 72 anos, que nasceu e cresceu no bairro e testemunhou várias das transformações ocorridas ao longo de décadas.
O Catambor, actualmente integrado no município da Maianga, nem sempre teve a configuração que apresenta hoje. Antes conhecido por Morro da Maianga, o bairro foi crescendo de forma espontânea, acompanhando a expansão urbana de Luanda e recebendo sucessivas gerações de famílias.
Um nome sem dono
A origem do nome Catambor não é atribuída a uma pessoa em particular, segundo os relatos dos moradores mais antigos. A designação foi passando de geração em geração até se tornar a identidade oficial e popular do bairro.
Tia Gui conta que, quando nasceu, já encontrou o nome Catambor associado ao local.
“Não tem uma pessoa específica que deu o nome de Catambor, mas quando eu nasci já encontrei este nome.”
A anciã recorda ainda algumas das figuras que fizeram parte da história do bairro, entre elas o senhor Tomé, já falecido, pai da Tia Clarinha, Dona Esperança Teles, Dona Boneca e Bribri.
Na sua memória, o Catambor de então era um espaço onde as relações de vizinhança tinham um peso maior e onde as crianças podiam circular entre diferentes zonas de Luanda com maior liberdade, embora sempre sob a vigilância dos pais.
“Antigamente não tinha delinquência como nos dias de hoje. Nós queríamos fazer farra, íamos às Palmeiras, saíamos daqui para outras zonas e também só saíamos com autorização dos pais.”
As chapas que deram nome ao bairro
Com mais de sete décadas de existência, o Catambor foi crescendo num terreno acidentado e densamente ocupado.
Uma das explicações transmitidas pelos moradores para a origem da designação está relacionada com as construções de outros tempos, muitas delas feitas com chapas de zinco e, segundo os relatos, até com chapas provenientes de tambores, utilizadas para erguer habitações num contexto de forte carência habitacional.
A arquitectura actual mantém algumas marcas desse processo de ocupação.
As casas, muitas delas construídas de forma anárquica, encontram-se agrupadas em espaços reduzidos, com pouca distância entre si. Em vários pontos, quase não existe espaço para ventilação ou circulação de ar, dando ao bairro uma sensação permanente de aperto.
O terreno montanhoso é atravessado por pequenas valetas por onde escorrem águas residuais. A ausência, em vários pontos, de sistemas convencionais de drenagem e esgotos faz com que as águas procurem os poucos espaços disponíveis para escoamento.
Água e energia entre necessidades e riscos
Apesar das limitações urbanísticas e das condições de habitabilidade, grande parte das residências dispõe de acesso à água da rede pública e energia eléctrica.
No entanto, as ligações eléctricas existentes no interior do bairro nem sempre oferecem segurança. Cabos atravessam ruas e becos de um lado para o outro, em alguns casos através de ligações improvisadas, criando riscos para moradores e transeuntes.
O cenário revela um bairro onde a modernidade e a precariedade convivem à curta distância.
Mobilidade condicionada
Percorrer o Catambor é também perceber os limites impostos pela própria configuração urbana.
Em grande parte do interior do bairro, a circulação de viaturas é praticamente impossível. Motorizadas, bicicletas e pedestres dominam os estreitos corredores que substituem as ruas convencionais.
O espaço disponível foi sendo ocupado por casas, casebres, pequenos estabelecimentos comerciais, salões de beleza e espaços de convivência.
Os becos funcionam como artérias de ligação entre diferentes pontos do bairro e, em alguns casos, conduzem a outras zonas de Luanda, como Margoso, Chabá, Prenda, Largo da Maianga, Mutamba e Alvalade.
O Catambor tornou-se, assim, não apenas um bairro residencial, mas também um ponto de passagem entre diferentes áreas da cidade.
O peso da fama
Para quem chega pela primeira vez, a configuração do bairro pode provocar uma sensação imediata de insegurança.
Os becos, as entradas estreitas, as paredes irregulares e a sucessão de pequenas passagens ajudam a construir uma imagem que, ao longo dos anos, ficou associada ao bairro.
Delinquência, prostituição e alcoolismo são alguns dos fenómenos frequentemente associados ao Catambor.
Mas essa imagem não traduz, por si só, a realidade de todos os moradores.
Quem vive no bairro preserva um sentimento de pertença e orgulho pela comunidade onde nasceu, cresceu e construiu a sua vida.
Para Tia Gui, aquilo que mais marcou a sua geração foi precisamente a relação entre os moradores.
“Antes havia mais união”
Ao recordar o passado, Tia Gui destaca a união, o respeito e a proximidade entre vizinhos como algumas das características que, na sua perspectiva, se foram perdendo com o passar dos anos.
Aos 72 anos, a moradora olha para o bairro com a autoridade de quem acompanhou várias gerações e não esconde a preocupação com algumas mudanças sociais que considera negativas.
Para ela, o Catambor de hoje enfrenta problemas que não tinham a mesma dimensão no passado, particularmente relacionados com o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e situações de violência contra mulheres.
“Actualmente, o Catambor não está bem. As mulheres estão a beber muito. Muitas mulheres são espancadas e há muita bebedeira.”
O relato da anciã expõe uma das faces menos visíveis do bairro: a transformação das relações sociais e o surgimento de comportamentos que, segundo os moradores mais antigos, contrastam com os padrões comunitários que conheceram durante a juventude.
Um bairro que resiste
Entre a memória dos mais velhos e a realidade das novas gerações, o Catambor continua a existir.
As suas casas, becos e caminhos guardam histórias de famílias que ali chegaram há décadas e de outras que nasceram já dentro do bairro. As marcas da ocupação desordenada convivem com pequenos negócios, igrejas, salões de beleza, espaços de convívio e uma população que diariamente procura sobreviver e construir o seu futuro.
Mais do que um território associado às dificuldades sociais, o Catambor é também uma comunidade com memória própria.
E é nessa memória que Tia Gui encontra a principal diferença entre o bairro que conheceu na infância e o bairro que observa hoje: antes, diz, havia mais união, respeito e controlo familiar; hoje, há mais conflitos, alcoolismo e violência.
No coração da Maianga, o Catambor permanece como uma espécie de arquivo vivo de Luanda, um bairro moldado por mais de 70 anos de histórias, transformações e resistência, onde o passado ainda conversa diariamente com os desafios do presente.
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