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PONTO EDITORIAL Publicado em 05/10/2026 às 10:00 19 visualizações

O PREÇO DA ESCURIDÃO NO BITA PROGRESSO: ATÉ QUANDO O CIDADÃO PAGARÁ PELA SABOTAGEM?

Localizado no município do Kilamba, de acordo com a nova divisão administrativa, o bairro Bita Progresso enfrenta um problema grave: o furto recorrente de cabos eléctricos, que deixa várias zonas às escuras e afecta directamente a vida das famílias.

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O PREÇO DA ESCURIDÃO NO BITA PROGRESSO: ATÉ QUANDO O CIDADÃO PAGARÁ PELA SABOTAGEM?
Imagem: DR/Ponto de Situação

Desde o ano passado chegam relatos daquela zona de Luanda, sobretudo da área do Quimbo, dando conta de sucessivos furtos de cabos eléctricos. Marginais continuam, a actuar no perímetro, prejudicando uma população que tudo faz para não ficar às escuras, enquanto alguns procuram alimentar os seus interesses à custa do prejuízo colectivo.

A título de exemplo, em Setembro deste ano, indivíduos ainda não identificados terão retirado cabos eléctricos, deixando parte do perímetro sem iluminação. A prática, segundo os relatos dos moradores, não é nova.

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O mais preocupante é que este cenário parece transformar-se num ciclo difícil de romper: os cabos são furtados, a população fica sem energia, os moradores procuram soluções para repor o fornecimento e, algum tempo depois, o problema volta a repetir-se.

É uma situação que não pode ser normalizada.

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Em cada ocorrência, os moradores dizem sentir-se abandonados perante um problema que não criaram. Há relatos de cidadãos que alegam ter recorrido às autoridades para denunciar os furtos, mas a situação continua, acompanhada de outras queixas relacionadas com roubos na via pública e em residências.

E aqui reside uma das maiores preocupações deste editorial: até quando o cidadão terá de pagar duas vezes?

Por um lado, paga pelo serviço de fornecimento de energia eléctrica. Por outro, segundo relatos dos próprios moradores, é chamado a contribuir para a aquisição de novos cabos sempre que estes são furtados.

É o cidadão a suportar o custo do consumo e, simultaneamente, a assumir encargos para repor um equipamento que foi alvo de uma acção criminosa.

Em tempos de elevado custo de vida, obrigar famílias a recorrer constantemente a “cotizações” ou “vaquinhas” para comprar cabos eléctricos representa um peso adicional sobre quem já enfrenta dificuldades para garantir as necessidades básicas.

Naturalmente, a população pode e deve participar na procura de soluções para os problemas da sua comunidade. Mas essa solidariedade não pode transformar-se numa espécie de obrigação permanente para reparar os efeitos de crimes que devem ser prevenidos e investigados pelas autoridades competentes.

É preciso, por isso, discutir responsabilidades.

Não se pode simplesmente aceitar que uma comunidade seja deixada às escuras, contribua para a compra de novos cabos e, pouco tempo depois, volte ao ponto de partida.

O problema também exige uma resposta firme das autoridades de segurança.

À Polícia Nacional e ao Serviço de Investigação Criminal (SIC), deixamos o apelo para que reforcem o trabalho de prevenção, investigação e patrulhamento no Bita Progresso, particularmente nas zonas onde os furtos são apontados como recorrentes.

Se os relatos indicam que determinadas áreas, como o Quimbo, são frequentemente afectadas, importa perceber por que razão os mesmos crimes continuam a repetir-se.

Mas há outra questão que não pode ser ignorada: se existe furto, existe, em algum momento, alguém que recebe, compra, transporta ou comercializa o material.

Combater apenas quem retira os cabos pode não ser suficiente. É necessário investigar também toda a cadeia que permite que o material furtado seja transformado em dinheiro.

O vandalismo e o furto de bens públicos ou de equipamentos essenciais à prestação de serviços à população não podem ser tratados como simples episódios policiais. Quando se repetem durante meses, passam a revelar um problema estrutural que exige respostas igualmente estruturais.

Há uma questão de segurança pública, existe  uma questão de responsabilização; há uma questão económica e, acima de tudo, há uma questão de dignidade.

Uma comunidade não pode viver permanentemente sob a ameaça de voltar à escuridão porque alguém decidiu transformar o património colectivo numa fonte de rendimento.

Aos cidadãos que insistem nestas práticas, fica também uma palavra: há muitas formas de ganhar dinheiro sem prejudicar o próximo.

Que legado pretendem deixar aos vossos filhos, sobrinhos, netos e familiares?

 Queremos que um dia eles olhem para trás e recordem que os seus pais e familiares contribuíram para construir uma comunidade melhor ou que foram responsáveis por retirar-lhe aquilo que lhe pertencia?

Não há prosperidade individual que justifique a miséria colectiva.

O Bita Progresso não pode continuar a pagar pelos actos de quem decide lucrar com a escuridão dos outros.

Por isso, esperamos que os relatos dos moradores encontrem resposta, que as denúncias sejam investigadas, que os responsáveis sejam identificados e, havendo provas, devidamente responsabilizados nos termos da lei.

Em outros territórios, operações das autoridades já resultaram na detenção de suspeitos envolvidos em crimes semelhantes. Que o mesmo rigor seja aplicado no Bita Progresso, porque uma comunidade que paga pela electricidade merece recebê-la; uma população que denuncia merece ser ouvida, e um cidadão que cumpre os seus deveres não pode ser condenado a viver na escuridão por causa da impunidade de outros.

O desenvolvimento económico, a segurança e a dignidade social não se constroem na escuridão.

Façamos diferente. O Bita Progresso merece mais: Angola também.

LEIA TAMBÉM: MAIS UM CAPÍTULO ABERTO NO CASO DOUTOR LAURINDO VIEIRA

 

Leal Mundunde
Leal Mundunde

Leal Mundunde é jornalista e exerce actualmente as funções de Director-Geral e Editor do Portal Ponto de Situação. Integra o órgão desde 2024, tendo anteriormente desempenhado as funções de Chefe de Redacção. Ao longo do seu percurso profissional, passou por diversos órgãos de comunicação social.

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