Assinalado a 2 de Novembro, o Dia dos Finados é uma data dedicada à memória e à homenagem aos entes queridos que já partiram. Entretanto, para alguns cidadãos, a forma como a sociedade encara a morte e participa nas cerimónias fúnebres tem sofrido profundas transformações ao longo dos anos.
Numa ronda realizada pela equipa do Ponto de Situação nas ruas da cidade capital, os cidadãos que lamentaram o que consideram ser a perda do respeito e de alguns valores tradicionais associados à morte.
Antonica Cuembra recordou que, antigamente, as famílias aproveitavam esta data para limpar e cuidar das campas dos seus familiares, uma tarefa que, segundo contou, podia ser realizada num único dia, devido ao número reduzido de sepulturas dos seus entequeridos.
Contudo, explicou que, desde que passou a viver em Luanda, a realidade tornou-se diferente, devido ao crescimento do número de mortes e à elevada ocupação dos cemitérios. como cotou a entrevistada, há famílias que já não conseguem localizar as campas dos seus entes queridos, por terem desaparecido ou por terem sido posteriormente ocupadas por outras sepulturas, situação que, na sua opinião, reduziu a necessidade de manter a antiga tradição de limpeza.
A cidadã manifestou igualmente preocupação com o comportamento de algumas pessoas durante os óbitos e funerais. Recordou que, antigamente, as crianças tinham medo de participar nestas cerimónias, ao ponto de precisarem da companhia dos pais para conseguirem dormir depois de presenciarem um funeral.
Na sua perspectiva, actualmente existe menos respeito pela morte, apontando comportamentos que considera preocupantes, como a alegada retirada de ossos humanos nos cemitérios para a realização de supostos pactos, além do uso de vestuário que considera inadequado durante as cerimónias fúnebres.
Por sua vez, Maria Júlio destacou as dificuldades enfrentadas por algumas famílias quando o falecido pertence a uma staff ou grupo de rua. Segundo explicou, nestas circunstâncias, os familiares podem perder a autoridade sobre a organização do óbito, ficando condicionados pelas decisões de outros membros do grupo.
Maria Júlio mostrou-se ainda preocupada com a presença de adolescentes de 13, 14 e 15 anos em óbitos e funerais, considerando que, antigamente, até os adultos tinham receio de se aproximar de um caixão.
Os testemunhos recolhidos revelam diferentes percepções sobre as transformações nas práticas funerárias e no relacionamento da sociedade com a morte, numa data em que a memória dos que partiram volta a ocupar o pensamento de muitas famílias.
A comemoração dos Fiéis Defuntos a 2 de Novembro tem origem na tradição católica. A escolha da data é atribuída a Santo Odilo, abade do mosteiro de Cluny, em França, que, no ano de 998, determinou que os mosteiros sob a sua autoridade dedicassem esse dia à oração pelos mortos. A celebração viria posteriormente a espalhar-se por outras comunidades cristãs.



































